O mais belo laiá-laiá é…

Abril 16th, 2007

Laiá-laiá é coisa de samba. Outros ritmos podem ter “lá lá lá”, “tunti tum”… Mais laiá-laiá, só o samba. Porque será? Pode ser tanta coisa. Pode haver alguma explicação ligada à harmonia e melodia próprias deste estilo. Existe uma teoria antropológica (que na verdade eu estou criando neste momento) que leciona: inserindo-se um laiá-laiá, até mesmo quem não sabe a letra pode participar daquele momento, de alguma forma. O samba é democrata.

Os paulistas são diferentes. Adoniran cantava “quais quais quais quais” e Vanzolini prefere não pôr refrões nem laiás em seus sambas. É um outro estilo.

Tem uns laiás-laiás que já enjoaram, como o que introduz “Tristeza”. “La lai á….lá…” Aliás, essa música já merece uma quarentena, né não, gente? Tipo, um ano sem ser cantada? Aí, quando ela vem - normalmente no final da noite -, aquele cara que não sabe cantar samba nenhum levanta os braços e grita a plenos pulmões. Eu aproveito para pegar mais uma cerveja.

Mas que é um laiá inconfundível, é. Tanto quanto o que introduz “Senhora Tentação”. Quando você escuta “Lá… laiá laiá laiá laiá laiá laiá…” você já sabe que vem: “Siiinto… abalada a minha caaalmaaa…”

O laiá-laiá mais lindo - que também é o predileto da amiga Lucia Helena, blogueira desta página que nunca escreve nada - vem do Império também. É o de “Amor Aventureiro”. “Lá… laiá laiá laiá laiá…” Não está reconhecendo o samba? Bem, não é muito cantado mesmo. Começa assim: “Eeeu… inspiro aventura…” Foi sucesso na voz do Roberto Ribeiro, e é composição de Mano Décio e Silas. Você pode ouvi-lo - e a muitos outros sambas - neste link: http://www.imperioserrano.com/paginas/escoladesamba.htm.

E você? Qual o seu laiá-laiá preferido? Pode copiar o meu, eu deixo :)

Abração da Eugênia.

Qual sua roda de samba favorita?

Abril 12th, 2007

Já tive tantas… Houve época em que batia ponto no Bip. Curtia o lugar pequenininho, onde todos se conhecem ou se conheceriam em minutos, o Chiquinho Genu cantando “Recado ao Poeta” e “Desalento”, o folclórico dono Alfredinho… Nossa, ia todo domingo. E era bom atualizar as novidades com Zilmar, Arnaldo, Arlete, Licínio, Michelle e, mais raramente, Vicki, Luise, Marcelo Moutinho. Nem ligava para a quase ausência de algo comível, porque comia um pastel gordurento (mas muito gostoso) num boteco ao lado que fechou.

Bem antes disso, quando o samba deixou de ser um dos vários estilos dos quais eu gostava para se tornar um vício (o maior deles), teve o bar do Seu Cláudio e a roda do Milanez no Econatural (haha, isso denuncia a idade). Tempos em que a Joaquim Silva tinha muuuito menos gente, a única música que existia era o samba e ele comia solto até amanhecer o dia. Aí a gente ia na padaria ali em frente tomar um pingado com pão e manteiga na chapa. Lembro dos meninos do Galo (à época, “Além da Razão”), dos meninos do Autonomia (à época, “Samba na Veia”), lembro do sorriso marcante do Milanez, lembro das presenças constantes de Robertinha Nistra, Gallotti, Aurélio (por onde andará Aurélio), Baiaco, Fernando Toledo, Deca, Flávia Uvah, Monique, Rosalina, Tércia, Pokemon, Fábio Bananada e, é claro, da figura magrinha e irresistível do saudoso Seu Cláudio. Tempos de Super 25 (um pastel - olha ele de novo - muito bom a apenas R$ 0,25 - isso também denuncia a idade).

Teve também a época do CCC. Presença certa de Vicki, Luise, Marcelinho Moutinho, Bernardo, Paula Maia, Arnaldo. Íamos às quintas ver Teresa e emendávamos no Capela. Também houve um tempo em que fui várias quartas-feiras seguidas ao Trapiche Gamboa, aprender sambas raros com Alfredo Del Penho, Pedro Amorim. E comer o “cocrete” de carne de lá, o escondidinho… Ah, não dá pra esquecer das noites de esbórnia no Guanabara, onde era a roda do Negão e do Nézio. Foram quartas-feiras inesquecíveis, de casos impublicáveis, sempre na companhia de Marcinha, Ângela Melim e Luise - elas batiam ponto no lugar.

E tem duas rodas nas quais quase não vou, pela distância, mas que estão guardadas no meu coração: Candongueiro e Cacique de Ramos.

Não dá para citar todas as rodas. Renascença, Terreiro do Galo, cada uma tem seu momento. Eu tenho momentos Democráticos… :) No sábado passado, lá estava eu no Carioca da Gema, feliz da vida, ouvindo uma das mais belas vozes do samba - Makley Matos.

Atualmente, a favorita é a do Moacyr Luz no Santos Dumont. Repertório excelente, alegria, amigos queridos, visual fantástico, cerveja de garrafa… Ei, são as mesmas características da roda da Pedra do Sal!

Ah, eu estudaria mais facilmente se morasse em lugar sem samba. Vou pra Genebra.

E você? Qual a roda que faz o seu coração-pandeiro bater mais rápido?

Eugênia.

Baluartes de Turiaçu dia 15 de abril

Abril 8th, 2007

A Dani Moreira já mandou parar com esse negócio de ficar fazendo agenda no blog, e todo mundo sabe que eu sou CPM (Comandado Por Mulher), mas é que o Fabinho Professor fez um post bonito pra cacete uns dias atrás, falando do samba dos Baluartes de Turiaçu, a terra da grande fogueira. Bom, daí que todo mundo tá perguntando onde é o samba, e que dia. E como essas coisas não são anunciadas por aí (parece que esse povo acha que o Rio de Janeiro termina na Tijuca, como aparece em alguns mapas turísticos), lá vai o serviço.

Fabinho mandou avisar: tem roda de samba dos Baluartes de Turiaçu dia 15 de abril, domingo, a partir das 14 horas, no Bar do César. Presença, entre outros, de Marçalzinho, Marquinho Diniz, Leandro Di Menor, Ivan Milanez, Zé Luiz e Camunguelo. O Bar do César fica na Rua Ricardo Silva, nº 43, em Turiaçu. É perto da Igreja de Santa Rita de Cássia. Pra quem vai de buzum, pega o 298 (Castelo-Acari-Cascadura-Vila Norma), ou a Van do mesmo número, ou qualquer ônibus que passe pela Rua Conselheiro Galvão. Pra quem vai de carro… não faço a menor idéia. Marca comigo que eu vou descobrir até lá. Eu já fui, o negócio é bom.

André Videira

O encontro do samba/choro com a milonga

Abril 5th, 2007

Amics,
Sem dúvida perguntar pela origem de certas coisas como o samba, por exemplo, é questão que sentido não faz mais…
Maravilhoso é pensar nos encontros que se produzem a partir de inusitados momentos ou naqueles outros minuciosamente planejados.
Vejam o metting entre o mestre Altamiro Carrillo e o músico argentino Mintcho Garrammone. Pena que no futebol o papo não seja tão amigável…
Boa conversa entre cordas e sopro!
Nilton

http://www.youtube.com/watch?v=j5OTF0SIK5s
http://www.youtube.com/watch?v=vNdz0IquNmU

Berço Esplêndido

Abril 2nd, 2007

Em mais um serviço de inutilidade pública, De que Lado Você Samba lança uma dica pra lá de imperdível:
Serginho Corrêa, conhecido por algumas amigas deste blog como Serginho Astral, colocou de volta na internet a belíssima rádio Berço do Samba. O repertório é impecável, bela trilha sonora pros dias insípidos de trabalho, pras horas em que ficamos, ansiosos, esperando o tempo de ir pras rodas de samba.
Só pros meus oito leitores terem uma idéia, saquem o set que eu acabei de ouvir:
Mulato Calado, com Clementina;
Camisa Listrada, com Betânia;
Amor Não é Brinquedo, com Luiz Carlos da Vila e Martnália;
O Homem de um Braço Só, com João Nogueira;
Madalena Cabrocha Bonita, com Almir Guineto;
Axé de Ianga, com Dona Ivone;
Cavaquinho Seresteiro, com Waldir Azevedo…
Tá bom? Ou quer mais? Se quiser, acesse
http://www.bercodosamba.com/radio.asp
Depois não digam que eu não sou gente fina.

Videira

Viva a Terra da Grande Fogueira: Turiaçu, a terra Irmã de Oswaldo Cruz.

Março 30th, 2007

Aos leitores deste importe blog do mundo do samba, tentarei contar uma rápida estória que não está na história; fazer um caloroso contive. É claro que essas duas “coisas” têm uma ligação íntima e profunda com um ritmo musical que é, foi e será um dos mais valorosos patrimônios imateriais da cidade do Rio de Janeiro. Falo “do” Samba: Samba com a inicial maiúscula; Samba filosofia de vida; Samba paixão de toda uma vida; Samba que quer dizer ritos que fazem alguém ser sambista. E vamos lá ao que eu prometi logo no início.

Começo a dizendo que, apesar da minha pouca idade, em algumas rodas de Samba, ao redor de Oswaldo Cruz e nas ruas deste importante bairro sou conhecido como Fabinho Professor. Mas meu nome de bastimo é Fábio Feliciano Barbosa. Eu vivo em Oswaldo do Cruz, um bairro (poderio) cuja importância para o samba e a MPB já ultrapassou todas as nossas fronteiras. Oswaldo Cruz, terra onde nasceu (e fica) a Portela. Oswaldo Cruz da Velha Guarda da Portela. Oswaldo Cruz “quintal” da Tia Doca. Oswaldo Cruz do Cabral e do Laurinho – lendas vivas do bairro. Oswaldo Cruz onde se canta e ouve samba “de janeiro a janeiro”, com profetizou o Seu Argemiro do Patrocínio. Oswaldo Cruz do Seu Monarco, do Seu Cabelinho, da Tia Surica, do Seu Manacea, do Seu Chico e da Neide Santana. Oswaldo Cruz do Buraco do Galo, Cura Ressaca e do nosso Agbara Dudu. Oswaldo Cruz que tem como estrela máxima Paulo Benjamim de Oliveira. Oswaldo Cruz de quem sabe o que é ser um sambista.

Nesta minha terra, sagrada e adorada, também têm nomes importantes do glorioso Império Serrano – o charmoso reizinho de Madureira. Nas suas ruas e batucadas, a qualquer hora do dia ou da noite, podemos encontrar com Cizinho e Zé Luiz, sambistas de primeira que dispensam comentários e elogios. Não posso esquecer da amigos Ivan Milanês e Romana – esta uma eximia conhecedora das “gastronomias” dos subúrbios do Rio. Salve Tia Nima, Balbina, Lindomar, Fabrício, W. das Neves, A. Machado e todo “estafe” dos verdadeiros imperianos de fé – os incontestáveis e imbatíveis devotos de São Jorge, um guerreiro mais do que justo.

Ocorre que bem pertinho de Oswaldo Cruz, minutos antes de Madureira, e colada a Rocha Miranda, bem próximo a Honório Gurgel, existe um outro bairro que nos últimos tempos tem feito muito pelo samba e os sambistas da nossa cidade. Falo de um bairro que faz jus a um dos possíveis significados do seu nome. Turiaçu, bairro irmão do meu (nosso) Oswaldo Cruz. Turiaçu quer dizer “terra da grande fogueira” . Em Turiaçu acontece uma vez por mês uma roda de samba liderada por um grupo de sambistas chamado “Baluartes de Turiaçu”. Os Baluartes são os grandes responsáveis pela existência e resistência das chamas dessa grande fogueira. Deles vêm as “energias” materiais e espirituais com as quais elas se alimentam.

A roda de samba dos Baluartes acontece religiosamente no segundo domingo do mês, sempre próximo à Estrada do Otaviano, sob as benções de Santa Rita de Cássia – padroeira do bairro e dos Baluartes, a santa das causas impossíveis diante das quais é preciso uma sabedoria profunda, muito profunda. E existe coisa mais impossível do que manter constantemente acesas as chamas de uma fogueira sem queimar quem está ou vive no seu interior? Graças a Santa Rita, o fogo “da grande fogueira”, a razão de ser dos Baluartes, não queima: alegra, diverte, encanta, apaixona.

Paulo Omar, Lelei Sabino, Cizinho e Zezinho – lideranças naturais e
legitimas dos nossos Baluartes – coordenam e animam uma roda de samba que congrega excelentes atrações artísticas e suculentos pratos da gastronomia sambista dos subúrbios cariocas: tripa lombeira; feijoada, angu a baiana; peixe frito com molho de camarão, vaca atolada, sopa de entulho, carne seca
com abóbora, mocotó, sopa de ervilha… só delícias que desafiam
qualquer tentativa de controlar o apetite. E nas rodas sempre tem cerveja gelada.

A filosofia dos Baluartes de Turiaçu é composta pelos seguintes
ingredientes: a) paz e amor, temperados e embalados por bons sambas; b) respeito aos sambistas; c) desejo de levar animação e diversão para quem participa das suas atividades; d) mostrar que Turiaçu é uma grande fogueira cujas chamas sempre brilharão cada vez mais; e) a malandragem é não ser malandro; f) cabelo branco é sinal de respeito; g) contar ao mundo que nos subúrbios cariocas estão as grandes fontes de energia do Samba e dos sambistas. Esta filosofia dos Baluartes contribui para a elevação da auto-estima de quem vive e freqüenta o bairro de Turiaçu, o que contribui para combater as mais variadas formas de intolerâncias e discriminações.

Outro importante mérito dos Baluartes de Turiaçu é reunir sambistas de peso cujo talento é reconhecido dentro e fora do Brasil. Nas rodas de samba dos Baluartes, nós podemos ver tocar e cantar: Marçalzinho; Zé Luiz e Ivan Milanês ambos da Velha Guarda do Império Serrano, o Baluarte Cizinho também da Velha Guarda do Império, atacando no surdo; o Chico da Curimba; o Preto Maneiro; o Klebinho Oliveira; o Jorge Presença; o Nenzinho com a Tia Doca e Família; o Wilian; a Gaúcha da Portela; o Edinho Oliveira; o Pelé do Pistão; o Bruno Maia; o Leandro “Dimenor”; os Netos do Samba com Carolzinha e Jorginho mandando vê na percussão. É muita gente boa. É muito samba bom.

Sinto-me feliz quando atravesso a chácara – o coração verde de alfaces e outras hortaliças que une O. Cruz e Turiaçu – para conviver com os Baluartes nos segundos domingos de cada mês. Vejo meus amigos. Reforço as minhas ligações com o samba. Canto. Danço. Paquero, é claro. Como e bebo – sempre bem e “muito bem”. Só sinto vontade de voltar para casa depois do fim de tudo. Quando o amigo Grande começa a recolher o som, e o samba definitivamente fica para o próximo terceiro segundo do mês seguinte.

Sou um radical porque tomo e quero saber (viver) as coisas pela raiz. Hoje, quando penso em samba de verdade – o que é chamado de raiz na grande imprensa e pelos entendidos em cultura popular – não penso só em Oswaldo Cruz e outros redutos já conhecidos. Descobri através dos Baluartes de Turiaçu que a chama do Samba arde em vários lugares. Ela arde em O. Cruz. Arde em Rocha Miranda e Honório Gurgel. Arde muito, muito em Turiaçu. Percebi e não vou mais esquecer que muitas das boas coisas que procuramos longe estão bem perto, na ponta do nariz. Desde pequeno sempre brinquei na grande chácara que une O. Cruz, Turiaçu e outros bairros da chamada Grande Madureira. Garoto, eu andava de bicicleta ou a pé, com meus amigos pelas ruas desses bairros. Buscávamos aventuras e diversões, festa e namoradas. Conseguimos muitas e novos amigos. Quantas vezes eu, Alfredo, Guto, César e Cosme (amigos inseparáveis) não fizemos essas andanças aventureiras? Várias, tantas que não dá nem para precisar. Eu só não imaginava que eu passava pela terra da grande fogueira que hoje ascende o meu coração e anima os meus sambas. Essa terra é Turiaçu. Aprendi nas ruas, rodas de samba e esquinas de O. Cruz e da vida, que ser sambista é cumprir alguns rituais entre os quais está o de passagem e de participação na Roda de Samba que os Baluartes fazem na Terra da Grande Fogueira, o hoje meu (nosso) Turiaçu. Ser sambista é ir e estar onde o samba vai para embalar os corações. Os Baluartes, tal qual uma tribo indígena, se reúnem se e chamam: Por Tupã e Mitan, por Oxalá e Xangô venham todos cantar; venham participar da nossa festa e sentir o calor da nossa fogueira. Só assim ela não será apagada. Agora o convite aberto aos sambistas que lêem o que está neste blog. Vamos
lá, minha gente, até Turiaçu. Sambista tem sempre que ir onde o samba está. Esse é o seu primeiro dever e o mais fundamental dos seus direitos. Ninguém mais vai poder falar sobre o Samba sem falar sobre os Baluartes e Turiaçu.

Aos Baluartes e a Turiaçu: carinho, respeito e profunda admiração.

Fábio Feliciano, Fabinho Professor.
Axé.

Partido Alto

Março 20th, 2007

Na década de setenta, Leon Hirzsman, um dos nomes mais importantes do Cinema Novo, diretor de São Bernardo e Eles Não Usam Black-Tie, foi a Madureira com Paulinho da Viola e filmou o excelente Partido Alto. No filme, dois eventos: uma roda de partido comandada por Candeia, com participação de Tantinho e Wilson Moreira, e um almoço na casa de Manacéia que, lógico, acaba numa fantástica roda com Casquinha, Argemiro e outros membros da Velha Guarda da Portela, além do próprio Paulinho. Eu já tinha visto esse filme há muitos anos, numa edição de curtas do Hirszman, que trazia também um filme sobre Nelson Cavaquinho e, a título de curiosidade, um curta chamado Ecologia, em que ele pensa a questão ambiental em um momento em que ela absolutamente não estava em pauta.

Partido Alto é uma delícia, com destaque pra Tantinho versando e tocando prato e faca, a conversa na mesa da casa de Manacéia, quando ele explica as origens baianas do partido alto, Wilson Moreira dançando o miudinho no meio da roda, além de, lógico, mestre Candeia, para quem o partido alto era a expressão máxima do samba. Transcrevo, a seguir, algumas de suas declarações no filme:

“Samba de partido alto, em algumas fórmulas, existe uma grande semelhança com a música nordestina, com os repentistas nordestinos. Porque o samba de partido também tem aquela forma de improvisação, a improvisação que vai nascendo não só sobre o tema, refrão, mas também sobre o ambiente, sobre um clima que vai se criando aos poucos”.

“Existem diversas formas de partido alto, variando-se no número de versos, versos de quadra, versos duplos, no caso, como também tomou uma forma de um… o partido se estendeu de uma tal maneira, que ficou sendo o que é considerado hoje a primeira parte de um samba. Era o caso que os grandes sambistas se referiam, que os sambas de antigamente não tinham segunda parte. Era uma espécie de partido, era um samba de uma só primeira, onde os versos eram improvisados. E como forma de partido, nós tínhamos na Portela, eu me lembro bem, eu encontrei um tipo de partido muito diferente do que se tem feito hoje em dia, aliás, acho que já não se faz mais. Era um partido que se identificava pelo som do cavaquinho, pelo instrumento de um prato, em que se formava a roda de samba sem refrão. Era somente o cavaquinho fazendo aquela sonorização, e mais os demais ritmos que iam se aderindo ao espírito do trabalho que se pretendia fazer”.

Pra minha surpresa, é possível assistir ao filme, na íntegra, através do Porta Curtas, da Petrobrás. Os links para este e outros documentários sobre samba, como Coruja (sobre Bezerra da Silva), Jaqueirão do Zeca e Nelson Sargento, estão disponíveis no site Brasileirinho (http://www.brasileirinho.mus.br/filmes.htm#). Um trecho de Partido Alto pode ser visto ainda pelo Youtube (http://www.youtube.com/watch?v=Uax_rK7zC3M).

Dever de casa: quem assistir aos outros filmes disponíveis no Brasileirinho comenta aqui pra gente saber o que achou. Que eu não tou ganhando pra isso…

André Videira

O Jacaré abraça a mulherada

Março 15th, 2007

Neste sábado, 17 de março, a partir das seis da tarde, tem a homenagem às mulheres do bloco Eu Sou Eu, Jacaré é Bicho d’Água, do meu querido Luciano Macedo.
Como de costume, a festa vai ser no simpatissíssimo Bar do Costa, em Vila Isabel, e contará com a participação do Sambacaviúna e canja de várias moças do samba.
Um samba pras moças…
Luciano fecha o convite lembrando o samba de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, uma lembrança sempre oportuna:
O nome de mulher é tão sagrado
Mulher é nome pra ser respeitado
A cobra não morde uma mulher gestante
Porque respeita o seu estado interessante

Minha mãe também tem nome de mulher
Tenho que defender
Eu choro quando vejo ela sofrer
Deus, nosso senhor, devia castigar
O infeliz que faz uma mulher chorar

O Videira

Pagode na Laje

Março 14th, 2007

Eu sei que esse blog tem uns oito leitores. E isso não é charme não, conta aí: Yabeta, Dida, Dani, Alex, Zé, Rosa, Hilaine. Deu sete. Faltou alguém?
Mesmo assim eu arrisco uma dica. Na última sexta fui ao “Samba, Luzia”, roda organizada pelo Moacyr Luz e a rapaziada do Samba do Trabalhador no Clube Santa Luzia, ao lado do aeroporto Santos Dumont.
É praticamente o mesmo time das segundas no Andaraí tocando no terraço do clube (ou na laje…), e com muitas participações ao longo da noite. A roda é animadíssima, enche mas não fica lotado, e em noites estreladas e enluaradas, como as últimas, é lindo.
A cerveja não tá exatamente barata: quatro reais (a garrafa grande). Mas estava gelada. Você pode comprar um balde com seis garrafas e levar pra mesa. Pra comer, pastel, caldinhos, sanduíches e congêneres.
Nesta sexta eu enfiei o pé na jaca, é claro… o repertório tava inspiradíssimo. E, é claro, só fui embora depois que o Efson cantou. O que é o Efson? O cara tem um astral incrível, e puxa sempre as suas composições mais animadas (”Caçamba” e “Firme e Forte” estavam lá). Daí, quando o povo todo tá cantando, ele abre os braços e diz: oooooooooouuuuuuuu!!!!!!! Muito bom esse “Samba, Luzia”. E traz a caçamba!!!

Videira

Sem Compromisso

Março 14th, 2007

Sem Compromisso é o nome do disco que brinda a parceria de Moacyr Luz e Armando Marçal, o Marçalzinho. Já ouvi algumas críticas ao disco, recém lançado. Uma delas bastante dura, inclusive. Avalia o disco como fraco, fundamentalmente porque, segundo esta opinião, a discreta percussão de Marçalzinho, a dividir o samba com a voz e o violão de Luz, não daria conta da falta de voz do Moacyr.
Ok, todos sabemos que o Moacyr Luz não é cantor. É um grande compositor que se arriscou a mostrar a voz nas rodas de samba, principalmente na roda do Clube Renascença, às segundas-feiras. Mas faz parte da mítica da música popular brasileira a incidência de compositores que “cantam mal”, segundo alguns, mas se notabilizaram pela interpretação de sua própria obra. O tipo-ideal desse “não-cantor que canta” seria Chico Buarque. Temos na nossa história alguns “não-cantores” brilhantes. Ouso colocar Moacyr entre eles. Não tem uma grande voz, mas é bom de ouvir. Dá umas rateadas em alguns momentos, mas tem uma voz simpática. E ele e Marçalzinho são grandes músicos.
O repertório é primoroso, e tem duas marcas: por um lado, a das composições de Moacyr, em parceria com Aldir Blanc (Rainha Negra e Mandingueiro), Hermínio Belo de Carvalho (Quem Mandou?), Martinho da Vila (Zuela de Oxum) e Sereno, do Fundo de Quintal (Que Batuque é Esse, composta para o disco); por outra, as obras-primas da dupla Bide e Marçal (este, Armando Marçal, avô de Marçalzinho e pai de Nilton, o Mestre Marçal): os clássicos A Primeira Vez, Agora é Cinza, Barão das Cabrochas e Não Diga a Minha Residência. Além disso, outros ilustres freqüentam o disco: Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro (Contentamento), Zé Keti (Leviana), Geraldo Pereira e Nelson Trigueiro (Sem Compromisso).
Há quem diga que falta arranjo no disco, que falta uma percussão maior, talvez até um naipe de metais. Eu acho é curioso que, com um repertório desses, marcado pela trajetória dos dois artistas, o título do disco seja justamente o de uma música do mangueirense Geraldo Pereira: Sem Compromisso. Eu acho que é justamente isso: é um disco sem compromisso, despretensioso, que quer ter essa cara de roda, mas de roda pequena, doméstica, entre amigos. Samba tocado no bar, com o som reverberando nos ladrilhos da parede, como os que aparecem na bela capa. Não dá pra dizer que é um grande disco, mas é gostoso de ouvir. Faça o seguinte: ponha pra tocar e veja a capa, com os dois olhando pra você, sentados numa mesinha do Trapiche Gamboa. Você vai levantar o dedo e pedir uma cerveja.

André Videira