Aos leitores deste importe blog do mundo do samba, tentarei contar uma rápida estória que não está na história; fazer um caloroso contive. É claro que essas duas “coisas” têm uma ligação íntima e profunda com um ritmo musical que é, foi e será um dos mais valorosos patrimônios imateriais da cidade do Rio de Janeiro. Falo “do” Samba: Samba com a inicial maiúscula; Samba filosofia de vida; Samba paixão de toda uma vida; Samba que quer dizer ritos que fazem alguém ser sambista. E vamos lá ao que eu prometi logo no início.
Começo a dizendo que, apesar da minha pouca idade, em algumas rodas de Samba, ao redor de Oswaldo Cruz e nas ruas deste importante bairro sou conhecido como Fabinho Professor. Mas meu nome de bastimo é Fábio Feliciano Barbosa. Eu vivo em Oswaldo do Cruz, um bairro (poderio) cuja importância para o samba e a MPB já ultrapassou todas as nossas fronteiras. Oswaldo Cruz, terra onde nasceu (e fica) a Portela. Oswaldo Cruz da Velha Guarda da Portela. Oswaldo Cruz “quintal” da Tia Doca. Oswaldo Cruz do Cabral e do Laurinho – lendas vivas do bairro. Oswaldo Cruz onde se canta e ouve samba “de janeiro a janeiro”, com profetizou o Seu Argemiro do Patrocínio. Oswaldo Cruz do Seu Monarco, do Seu Cabelinho, da Tia Surica, do Seu Manacea, do Seu Chico e da Neide Santana. Oswaldo Cruz do Buraco do Galo, Cura Ressaca e do nosso Agbara Dudu. Oswaldo Cruz que tem como estrela máxima Paulo Benjamim de Oliveira. Oswaldo Cruz de quem sabe o que é ser um sambista.
Nesta minha terra, sagrada e adorada, também têm nomes importantes do glorioso Império Serrano – o charmoso reizinho de Madureira. Nas suas ruas e batucadas, a qualquer hora do dia ou da noite, podemos encontrar com Cizinho e Zé Luiz, sambistas de primeira que dispensam comentários e elogios. Não posso esquecer da amigos Ivan Milanês e Romana – esta uma eximia conhecedora das “gastronomias” dos subúrbios do Rio. Salve Tia Nima, Balbina, Lindomar, Fabrício, W. das Neves, A. Machado e todo “estafe” dos verdadeiros imperianos de fé – os incontestáveis e imbatíveis devotos de São Jorge, um guerreiro mais do que justo.
Ocorre que bem pertinho de Oswaldo Cruz, minutos antes de Madureira, e colada a Rocha Miranda, bem próximo a Honório Gurgel, existe um outro bairro que nos últimos tempos tem feito muito pelo samba e os sambistas da nossa cidade. Falo de um bairro que faz jus a um dos possíveis significados do seu nome. Turiaçu, bairro irmão do meu (nosso) Oswaldo Cruz. Turiaçu quer dizer “terra da grande fogueira” . Em Turiaçu acontece uma vez por mês uma roda de samba liderada por um grupo de sambistas chamado “Baluartes de Turiaçu”. Os Baluartes são os grandes responsáveis pela existência e resistência das chamas dessa grande fogueira. Deles vêm as “energias” materiais e espirituais com as quais elas se alimentam.
A roda de samba dos Baluartes acontece religiosamente no segundo domingo do mês, sempre próximo à Estrada do Otaviano, sob as benções de Santa Rita de Cássia – padroeira do bairro e dos Baluartes, a santa das causas impossíveis diante das quais é preciso uma sabedoria profunda, muito profunda. E existe coisa mais impossível do que manter constantemente acesas as chamas de uma fogueira sem queimar quem está ou vive no seu interior? Graças a Santa Rita, o fogo “da grande fogueira”, a razão de ser dos Baluartes, não queima: alegra, diverte, encanta, apaixona.
Paulo Omar, Lelei Sabino, Cizinho e Zezinho – lideranças naturais e
legitimas dos nossos Baluartes – coordenam e animam uma roda de samba que congrega excelentes atrações artísticas e suculentos pratos da gastronomia sambista dos subúrbios cariocas: tripa lombeira; feijoada, angu a baiana; peixe frito com molho de camarão, vaca atolada, sopa de entulho, carne seca
com abóbora, mocotó, sopa de ervilha… só delícias que desafiam
qualquer tentativa de controlar o apetite. E nas rodas sempre tem cerveja gelada.
A filosofia dos Baluartes de Turiaçu é composta pelos seguintes
ingredientes: a) paz e amor, temperados e embalados por bons sambas; b) respeito aos sambistas; c) desejo de levar animação e diversão para quem participa das suas atividades; d) mostrar que Turiaçu é uma grande fogueira cujas chamas sempre brilharão cada vez mais; e) a malandragem é não ser malandro; f) cabelo branco é sinal de respeito; g) contar ao mundo que nos subúrbios cariocas estão as grandes fontes de energia do Samba e dos sambistas. Esta filosofia dos Baluartes contribui para a elevação da auto-estima de quem vive e freqüenta o bairro de Turiaçu, o que contribui para combater as mais variadas formas de intolerâncias e discriminações.
Outro importante mérito dos Baluartes de Turiaçu é reunir sambistas de peso cujo talento é reconhecido dentro e fora do Brasil. Nas rodas de samba dos Baluartes, nós podemos ver tocar e cantar: Marçalzinho; Zé Luiz e Ivan Milanês ambos da Velha Guarda do Império Serrano, o Baluarte Cizinho também da Velha Guarda do Império, atacando no surdo; o Chico da Curimba; o Preto Maneiro; o Klebinho Oliveira; o Jorge Presença; o Nenzinho com a Tia Doca e Família; o Wilian; a Gaúcha da Portela; o Edinho Oliveira; o Pelé do Pistão; o Bruno Maia; o Leandro “Dimenor”; os Netos do Samba com Carolzinha e Jorginho mandando vê na percussão. É muita gente boa. É muito samba bom.
Sinto-me feliz quando atravesso a chácara – o coração verde de alfaces e outras hortaliças que une O. Cruz e Turiaçu – para conviver com os Baluartes nos segundos domingos de cada mês. Vejo meus amigos. Reforço as minhas ligações com o samba. Canto. Danço. Paquero, é claro. Como e bebo – sempre bem e “muito bem”. Só sinto vontade de voltar para casa depois do fim de tudo. Quando o amigo Grande começa a recolher o som, e o samba definitivamente fica para o próximo terceiro segundo do mês seguinte.
Sou um radical porque tomo e quero saber (viver) as coisas pela raiz. Hoje, quando penso em samba de verdade – o que é chamado de raiz na grande imprensa e pelos entendidos em cultura popular – não penso só em Oswaldo Cruz e outros redutos já conhecidos. Descobri através dos Baluartes de Turiaçu que a chama do Samba arde em vários lugares. Ela arde em O. Cruz. Arde em Rocha Miranda e Honório Gurgel. Arde muito, muito em Turiaçu. Percebi e não vou mais esquecer que muitas das boas coisas que procuramos longe estão bem perto, na ponta do nariz. Desde pequeno sempre brinquei na grande chácara que une O. Cruz, Turiaçu e outros bairros da chamada Grande Madureira. Garoto, eu andava de bicicleta ou a pé, com meus amigos pelas ruas desses bairros. Buscávamos aventuras e diversões, festa e namoradas. Conseguimos muitas e novos amigos. Quantas vezes eu, Alfredo, Guto, César e Cosme (amigos inseparáveis) não fizemos essas andanças aventureiras? Várias, tantas que não dá nem para precisar. Eu só não imaginava que eu passava pela terra da grande fogueira que hoje ascende o meu coração e anima os meus sambas. Essa terra é Turiaçu. Aprendi nas ruas, rodas de samba e esquinas de O. Cruz e da vida, que ser sambista é cumprir alguns rituais entre os quais está o de passagem e de participação na Roda de Samba que os Baluartes fazem na Terra da Grande Fogueira, o hoje meu (nosso) Turiaçu. Ser sambista é ir e estar onde o samba vai para embalar os corações. Os Baluartes, tal qual uma tribo indígena, se reúnem se e chamam: Por Tupã e Mitan, por Oxalá e Xangô venham todos cantar; venham participar da nossa festa e sentir o calor da nossa fogueira. Só assim ela não será apagada. Agora o convite aberto aos sambistas que lêem o que está neste blog. Vamos
lá, minha gente, até Turiaçu. Sambista tem sempre que ir onde o samba está. Esse é o seu primeiro dever e o mais fundamental dos seus direitos. Ninguém mais vai poder falar sobre o Samba sem falar sobre os Baluartes e Turiaçu.
Aos Baluartes e a Turiaçu: carinho, respeito e profunda admiração.
Fábio Feliciano, Fabinho Professor.
Axé.