Cartola: cinema para os ouvidos.
Cartola – Música Para os Olhos é um desses filmes obrigatórios pra quem gosta de samba. Bom, é fundamental pra quem gosta de cinema, de música e de Cartola. E veja, é possível gostar disso tudo sem exatamente gostar de samba. Tanto que o filme, sempre elogiado nas saídas do cinema, tem atraído algumas críticas dos mais aficcionados. Diz-se que não é suficientemente reverente. Que mistura Cartola com outros elementos da formação da cultura brasileira, produzindo um mosaico que acaba por subutilizar o vasto material disponível sobre o Mestre. E por aí vai.
O que direi? Concordo. Justamente por isso gostei do filme. Não, não quero parecer desrespeitoso em relação ao Mestre Agenor de Oliveira. E nem acho que o filme o é. É que eu acho mais que isso: acho que, a pretexto de fazer um filme sobre Cartola, Lírio Ferreira e Hilton Lacerda acabaram por produzir um belo relato sobre as primeiras sete décadas da história do samba. E a beleza da homenagem está em dizer, e provar, que essa história se confunde com a biografia de Cartola, protagonista de seus principais dramas.
O filme é, na verdade, um espetacular trabalho de pesquisa e edição. Ou seja, conta a(s) história(s) direitinho. O samba é carioca, diz alguém em dado momento (Hermano Vianna? Não sei…). Nasceu nas casas das tias da Pequena África, na Praça Onze. Veio, em embrião, nos balaios que chegaram da Bahia, mas nasceu aqui, carioca. Definido e definidor no nosso jeito de ser. E, enquanto o samba nascia, o menino Agenor chegava, aos onze anos, ao morro da Mangueira, que mais tarde ele mesmo pintaria de verde e rosa. E olhava de longe as rodas de samba, calado, “coisa de adulto”.
A repressão ao samba, contada em emocionantes imagens de Donga e João da Baiana, histórias de pandeiros apreendidos pela polícia, ganha sentido quando entendida como parte de um movimento maior, de repressão às formas negras de expressão cultural e religiosa. Repressão que Agenor, ainda jovem, também sofre, ganhando a vida como cambono, em uma época que a umbanda e o candomblé eram tão criminalizados quanto o samba. Coisas de preto.
As contradições de classe que o samba vive também estão lá, na história de Cartola. Reconhecido e venerado pela classe média alta, por intelectuais e artistas, viveu as dificuldades próprias dos moradores das favelas e dos bairros populares. Lapidar exemplo de tais contradições, que alguns de nossos maiores compositores vivem até hoje, é a história de quando, já famoso, vai trabalhar como contínuo em um Ministério (de quê mesmo, meu Deus?). Por uma intervenção do filho do Ministro, que chama a atenção do pai para o fato de que seu contínuo é o Cartola, passa a trabalhar de 11 às 14, apenas servindo cafezinho.
As vendas de parceria, a transformação dos blocos em escolas de samba, o namoro entre o samba e a bossa nova na década de sessenta, tudo está lá, na história de Cartola. História que, aliás, poderia compor, direitinho, um enredo pra Mangueira, justamente em 2008, ano do centenário do seu maior ícone. É uma história que, de outro jeito, o próprio Cartola já tinha contado, em parceria com Carlos Cachaça:
Os tempos idos/ nunca esquecidos/ Trazem saudades ao recordar/ É com tristeza que eu relembro/ Coisas remotas que não vêm mais/ Uma escola na Praça Onze/ Testemunha ocular/ E junto dela balança/ Onde os malandros iam sambar/ Depois, aos poucos, o nosso samba/ Sem sentirmos se aprimorou/ Pelos salões da sociedade/ Sem cerimônia ele entrou/ Já não pertence mais à Praça/ Já não é samba de terreiro/ Vitorioso ele partiu para o estrangeiro/ E muito bem representado/ Por inspiração de geniais artistas/ O nosso samba, humilde samba/ Foi de conquistas em conquistas/ Conseguiu penetrar no Municipal/ Depois de percorrer todo o universo/ Com a mesma roupagem que saiu daqui/ Exibiu-se para a duquesa de Kent no Itamaraty.
O excesso de imagens da época, de Oscarito e Carmem Miranda a cenas da ditadura militar, serve para ambientar cada momento da vida de Cartola e, se torna o filme mais charmoso, acaba por gerar certa confusão no espectador menos informado, que por vezes pode ter dúvidas até sobre a década na qual determinada história é contada. Faltam também referências mais precisas a personagens e depoentes. Parece que o filme não se quer muito careta, então acaba faltando um pouco de informação. A cereja do bolo: são imperdíveis as cenas de Cartola e Dona Zica no cinema, em Ganga Zumba, de Cacá Diegues.
Enfim, a história está lá, bem contada. E essa é uma história que não termina. E hoje, vinte e sete anos depois da partida de Cartola, ela continua, nas escolas de samba, nas rodas cada vez mais cheias, no carnaval redivivo e no surgimento de novos compositores. E é assim que termina o filme, como a realização de uma profecia, com Cartola cantando:
Todo tempo que eu viver/ só me fascina você,/ Mangueira/ Guerreei na juventude, fiz por você o que pude,/ Mangueira/ Continuam nossas lutas, podam-se os galhos, colhem-se as frutas e outra vez se semeia/ e no fim desse labor, surge outro compositor, com o mesmo sangue na veia.
Viva Cartola! Viva o Samba!
André Videira

Maio 3rd, 2007 at 17:28
Que beleza! Quem não viu já tem compromisso agendado.
Lírio Ferreira é dessas boas coisas que Pernambuco nos presenteia, vez por outra. Trata-se de cineasta maduro e que não foge de uma boa briga com os “estabelecidos” do cinemão nacional com apê na Lagoa Rodrigo de Freitas…
Nilton
Maio 4th, 2007 at 11:57
Haha! NINI é o Nilton… achei q era o amigo Nininho, do grupo Bossa do Samba.
Bom, André, adorei seu texto. O filme eh mt bom mesmo. Tenho ressalvas, vc sabe disso, mas gostei. O prazer das imagens do Cartola, do Zicartola etc. suplanta qq palpite sobre a direção em si.
Beijos a todos… saudades!
Maio 7th, 2007 at 15:36
ah, e adoro a cena em q ele toca para o pai… ficou uma coisa bem “meu garoooto…”
Maio 8th, 2007 at 01:04
Mto bacana o seu texto . Vi o filme-documentário e a emoção tomou conta de mim, coisa q um bom samba sabe fazer … Tive o privilégio de ver Cartola no palco, em 1978, aqui em Salvador… outro filme passou em mim qdo via o ‘Música para os olhos’…. Sim, sobre se samba é baiano ou carioca, melhor citar Noel: ‘ quem suportar uma paixão, sentirá q o samba então, nasce no coração’ .
Abração,